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sábado, 31 de março de 2018

Duas mulheres aos pés da Cruz

Na narrativa da morte de Jesus segundo João, lemos: “Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena” (Jo 19,25 – tradução da Bíblia de Jerusalém). Essas figuras femininas situadas aos pés da cruz foram retratadas de diversas formas em pinturas e literaturas ao longo dos séculos, sem que deixassem de suscitar a curiosidade dos leitores do Quarto Evangelho. Juan Mateos e Juan Barreto consideram, apesar da ambiguidade do versículo citado, que sejam apenas duas mulheres junto à cruz. Segundo sua intepretação, o trecho seria melhor entendido da seguinte forma: Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe e a irmã de sua mãe, ou seja: Maria (a de Clopas) e Maria Madalena.
Maria, a filha de Clopas, seria a Mãe de Jesus, que aparecera no livro de João uma outra vez, no episódio das Bodas em Caná da Galileia. Nesse Evangelho, Maria é uma figura literária que representa o Israel antigo que, diante dos sinais de Jesus, reconhece nele uma possibilidade para a restauração esperada. Esta mulher é a figura daqueles que fielmente esperavam a intervenção de Deus em sua história, e que reconhecem que Jesus é um possível Messias.
Maria Madalena aparece aqui pela primeira vez e tornará a aparecer em uma das principais cenas joaninas: a da Ressurreição. Ela é figura da nova comunidade, aquela que, testemunhando os sinais do Senhor, desejam aderir ao seu projeto e firmar com ele uma aliança definitiva. Ela é, portanto, imagem de todos nós, que conhecemos o Senhor e com ele queremos permanecer.
Se avançamos na leitura do c. 19, descobrimos outro personagem importante: o discípulo amado. A exemplo de Madalena, ele é também o símbolo do povo da Nova Aliança, porque não é só alguém que ama Jesus, mas que é também por ele amado.
Jesus, desde o alto da cruz, integra à nova comunidade o grupo daqueles que pertenciam à Antiga Aliança, quando entrega a Mãe ao discípulo e este à mulher. O Evangelista esclarece: “E a partir dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa” (Jo 19,27). A comunidade antiga, da qual Maria, a mãe, é a figura, não mais voltará a aparecer no Evangelho de João porque agora ela foi incorporada à nova comunidade, que também está ali. Há, portanto, na cruz, duas Marias e duas comunidades que tornar-se-ão apenas uma: aquela que o Ressuscitado encontrará chorando no jardim do c. 20.
Dessa forma, João acena, já no c. 19, que a cena da morte não é o fim. A comunidade que caminhara com o Mestre e testemunhara, confiante, seus sinais não está desamparada. Como estrangeira, é recebida na casa de uma nova comunidade, para celebrar um novo banquete, uma Páscoa que acontece no terceiro dia após a sua. A morte de Jesus no Evangelho de João – e também na vida real – não indica fim ou encerramento de antigas coisas, mas acena para o novo e instaura a expectativa do que está por vir.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Evangelho de João - uma breve introdução

Imagem relacionadaDos Quatro Evangelhos canônicos, João é o que mais se diferencia pelo seu estilo literário, pelo seu viés teológico e por seus objetivos. Por isso, costumamos denominar Marcos, Mateus e Lucas de Sinópticos, porque narram os eventos ao redor de Jesus sob um mesmo olhar. João distancia-se destes três em vários aspectos. 
Uma primeira razão para justificar este distanciamento é sua época de redação. Enquanto Marcos foi escrito ao redor do ano 60 d.C. e Mateus e Lucas ao redor do ano 75 d.C., João foi escrito apenas no final do séc. I, talvez por volta do ano 90 d.C. Embora as diferenças não aparentem ser tão significativas, devemos considerar que Marcos, o primeiro evangelista, inaugura o gênero, ou seja, é o primeiro a escrever um Evangelho a respeito de Jesus Cristo e não tem precedentes em quem se espelhar. Assim, ele é bem mais breve e apologético. Aproxima-se mais da historicidade como a compreendemos hoje, porque era uma necessidade apresentar Jesus e levar as pessoas à fé. Sua distância temporal desde os eventos da Ressurreição de Jesus era de apenas 30 anos. Quando João escreveu, ao menos 60 anos após a Ressurreição, já não era necessário apresentar Jesus, porque ele escreve a uma comunidade que já professava a fé cristã. Assim, ele podia escrever uma teologia mais desenvolvida e mais refletida, narrando os eventos a respeito de Jesus de uma maneira diferente da que os Sinópticos haviam utilizado. Além disso, ele dispunha dos Três Evangelhos - além de outros apócrifos - como fonte. 

Há diversas hipóteses quanto à autoria do Quarto Evangelho. A que preferimos é a de que João seja obra de uma comunidade, não apenas de uma pessoa. Esta comunidade, reunida ao redor da tradição do Discípulo Amado que muitos identificam como sendo o jovem João, utilizou-se de seu nome e de sua figura para dar legitimidade ao seu texto. Toda a comunidade, guardiã das tradições e reflexões a respeito de Jesus, que se originaram desse Discípulo Amado, foi quem escreveu o Evangelho. Ele destinava-se, originariamente, à própria comunidade. Por isso parece ser um texto codificado, profundamente enraizado nas tradições hebraicas, como datas importantes de festas judaicas ou convenções e  estilos literários que se aproximam da Bíblia Hebraica. O Evangelho de João não é antijudaico como se costuma afirmar. Pelo contrário: retoma os principais temas da Bíblia Hebraica e funda-se sobre as principais tradições judaicas. Podemos dizer que o Evangelho de João, em sua origem, não teve pretensão nenhuma de transmitir uma mensagem universal para as futuras gerações. Não queria nem mesmo conduzir à fé os que não criam em Jesus. Seu objetivo era apenas corroborar a fé daqueles que já professavam uma fé propriamente cristã.

Como o Quarto Evangelho surge já no fim do séc. I, foi uma necessidade lidar com nascentes más compreensões do Cristianismo, que posteriormente seriam denominadas heresias. As duas principais correntes de pensamento contra as quais o Evangelho de João levanta-se são o gnosticismo e o docetismo. O gnosticismo acreditava que a matéria é algo ruim, oposta ao espírito e obstáculo à salvação. Por isso, em diversos trechos, o Evangelho de João ressalta a humanidade de Jesus, como quando narra sua angústia ao presenciar a morte do amigo Lázaro ou quando coloca-o sentado, cansado e com sede à beira de um poço. Para João, não há a dualidade corpo/espírito como instâncias antagônicas. O docetismo entendia que a humanidade de Jesus é apenas aparente, e ele na verdade era somente Deus. Assim, há mais um motivo para que João reafirme a humanidade de Jesus e principalmente seu sofrimento ao redor dos eventos de sua Paixão, a fim de reafirmar que Jesus era tão homem quanto Deus, e sua humanidade era real e acarretava todas as consequências físicas e sentimentais próprias do humano.

Continue acompanhando as próximas postagens!